Me considero um observador da vida. Não no sentido negativo de impassividade diante da maravilhosa aventura de viver. Não como alguém que não produz, não busca, não sonha, não espera nada mais do que o que já tenho ou possuo. Vivo cada dia mais apaixonado, cada dia mais empolgado, cada dia com mais expectativa do que o amanhã pode trazer. Tendo já vivido 4 décadas espero ansioso pelos anos que Deus ainda irá me conceder. Me percebo um observador da vida no sentido de tentar aprender um pouco mais, aprender com o que vejo, com o que percebo. Aprender com o erro e fixar os acertos. Gosto de ouvir, aliás parte do meu ofício de pastor é ouvir, histórias, lições de vida, causos e ditos populares; vejo neles sabedoria e a crua realidade de muitos. Gosto de perceber como a vida se desenrola na vida do outro, na perspectiva alheia. Tudo isto me ensina, inspira, desafia e causa admiração.
Dentre estas tantas “observações” notei a busca que os seres humanos tem por alguém. Alguém que muitas vezes nem mesmo a pessoa que busca sabe quem é. Apenas se sente um vazio, um buraco, um hiato. É como um descompasso no coração, um olhar distante perdido no horizonte da vida. Busca o que não perdeu, espera por quem nunca se despediu. Um desejo de encontrar o que falta, de suprir a carência de “se achar”.
Foi dai que me lembrei de um relato de Platão, grande filósofo da Grécia antiga, onde ele descreve que cada um de nós é apenas metade de uma alma. Somos incompletos e vivemos em busca de realização em uma alma gêmea. Passamos a vida inteira à procura dessa outra metade e só nos sentimos completos, realizados, todo, quando a encontramos. E quando isto acontece, saberemos na mesma hora. Uma alma gêmea é o clamor mais poderoso de nosso coração. Suprir esta necessidade constitui a razão mais profunda de vivermos. Buscamos esta realização no conjuge, mas logo percebemos que as metades parecem ter sido retiradas de frutas diferentes. Buscamos nos amigos, nas realizações e conquistas, no patrimônio ou grau acadêmico. A verdade é que a busca parece não ter fim; é correr atrás do vento. Assim que conquistamos o que parecia ser, falta em outro lugar.
O mais intrigante de tudo é que esta busca não é seletiva. Ela vem sobre o pobre, rico, culto, religioso, enfim, parece que todo ser humano é refém desta busca. E de fato somos. Santo Agostinho de Hipona parece ter entendido um pouco mais sobre isto quando escreveu, “inquieto estará o meu coração enquanto eu não encontrar significado em tí somente oh Senhor.” Nada nem niguém pode preencher o vazio que existe em nós, ele é maior do que pessoas, mais profundo do que amizades, mais extenso do que aquisições. É a busca por sentido, não sentido em coisas ou pessoas, mas sentido para viver. É uma pergunta que sem som nenhum se faz ouvir dentro de todos nós “qual o sentido da vida?” Por isso sugiro, como observador da vida, que cessemos de buscar em pessoas, coisas ou lugares, e olhemos para o alto, para Deus.
Nossa outra metade, nosso sentido de existir, nosso contentamento é o Senhor nosso Deus. Fomos criados por Ele e para Ele, enquanto não nos acharmos nele continuaremos em uma busca desenfreada daquilo que nem mesmo nós sabemos o que é.
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