Com a máxima filosófica de Descartes de que “penso logo existo,” descortinou-se toda a base de um movimento que mudaria os conceitos sociais e a compreensão do humanismo por séculos vindouros. A capacidade de refletir e discutir opiniões, de abrir espaço para o diálogo e o martelar das diferentes idéias, leva o indivíduo a um novo estado existencial. Aliás, seguindo a afirmação aristotélica de que a racionalidade é a diferença específica entre o Homem e seu gênero próximo, os outros animais, negando a possibilidade do diálogo baseado na capacidade de cada indivíduo de raciocinar segundo seu conjunto de compreensão e informação da vida, é rebaixá-lo ao nível dos animais. “O homem é um animal racional”. Minha intriga está no fato de que na maioria dos ambientes cristãos, perdemos a capacidade de raciocinar logicamente, aliás, não sei se deveria dizer perdemos ou fomos proibidos. O diálogo ameaça, a discussão provoca sentimentos fortes e aflora as vezes o pior em cada um de nós. Mas onde repousa o problema? Se ganhamos tanto com a libertação medieval de aceitar as idéias impostas sobre nós como apenas sendo verdadeiras porque alguém assim determinou, de onde vem este retrocesso proibitivo de que assim como o ferreiro malha o ferro para moldá-lo e aperfeiçoá-lo, não podemos fazer o mesmo com as idéias que nos cercam, com os ensinamentos que nos são passados? Porque temos que ceder a um inconsciente coletivo como se a massificação de um conceito o fizesse mais correto ou positivo? Pelo contrário, às vezes a massa pode ser totalmente incoerente e, seguir a multidão nem sempre te leva ao fim desejado ou certo. Minha única conclusão “lógica” é de que pessoas se beneficiam quando a capacidade e o direito de reflexão é tolhido. Dominar sobre quem não questiona ou não pensa é muito mais fácil. Disse alguém que levantar um ditador na África é muito mais fácil do que na Inglaterra. Mas perdemos muito quando assim nos comportamos. Debater ou discutir opiniões, mesmo quando são contrárias às nossas, nos enriquece, fortalece nossas convicções e pode nos fazer perceber o quanto estávamos equivocados. De qualquer maneira, sairemos pessoas melhores deste processo de diálogo. Vamos resgastar não os conceitos filosóficos do diálogo e debate, mas a liberdade bíblica de poder pensar diferente e em amor trabalhar as diferenças. Vamos nos esforçar para perceber se diante de nós não se descortina novos horizontes, possibilidades marcantes e espetaculares. Vamos trabalhar para que na “multidão de conselheiros” exista sabedoria, e não no discurso totalitário de uma pessoa qualquer. Vamos voltar aos estudos coletivos da palavra de Deus, onde a discussão gire em torno não da “revelação” especial a uma pessoa, mas à presença do Espírito de Deus na coletividade. Vamos voltar ao sacerdócio universal de todos os santos, a compreensão da graça comum e a percepção da presença capacitadora de Deus em todos e em cada um de nós. Pois afinal de contas, nós fomos criados à imagem e semelhança de Deus.
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